Viseu Esquerda

Homenagem de Cavaco silva a salgueiro Maia: Mudam-se os tempos...

Está visto que Cavaco Silva decidiu colocar definitivamente o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas na agenda, fazendo deste um "happening" em tudo contrário aos enfadonhos discursos que o costumam caracterizar, não a ele, mas ao dia, ou também a ele e ao dia.

Se o ano passado a cerimónia ficou marcada pelo revivalismo da "raça", não sei se de cães de água ou de cavalos lusitanos, o Sr. Presidente da República aproveitou hoje a data para se redimir de um erro histórico cometido pela sua pessoa e pelo seu governo há exactamente 20 anos atrás, ao decidir homenagear Salgueiro Maia publicamente com a colocação de uma coroa de flores na sua estátua em Santarém. Para quem não se recorda do episódio sórdido que tanta polémica e indignação gerou na altura, aqui fica um resumo:

Corria o ano de 1988 quando Salgueiro Maia requereu uma pensão que considerasse os chamados "serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país". Em 1989, o conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República aprovou o parecer por unanimidade. O governo ignorou-o. Tal como ignorou Saramago. E de ignorância em ignorância, e do alto da sua maioria absolutíssima, fez-se luz e decretou-se que jamais esse ignorante governo ignoraria portugueses tão prestáveis. Pena é que essa luz tenha vindo apenas 3 anos depois, quando caíram na secretária do nosso ilustre primeiro-ministro os pedidos de reforma de 2 inspectores da sombria PIDE/DGS, António Augusto Bernardo e Óscar Cardoso, prontamente assinados. O primeiro foi o último e derradeiro chefe da polícia política em Cabo verde, o segundo foi um dos agentes que se barricaram na António Maria Cardoso e que dispararam sobre a multidão que festejava efusivamente a liberdade concedida horas antes pelos militares comandados por, ironia das ironias, Salgueiro Maia. Morreram 4 pessoas. Aliás, as únicas vítimas da revolução. Cavaco Silva premiou um dos assassinos com a mesmíssima reforma que havia negado a Salgueiro Maia, isto é, pelos chamados "serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país".

Estamos hoje em 2009. Os tempos são outros, e o austero primeiro-ministro de então também já está na "reforma". Na reforma que recebe do Banco de Portugal e na reforma que recebe da segurança social pelos anos em que leccionou na Universidade Nova. Mas estando na reforma, também trabalha, pelo que recebe o salário que é de lei, respectivo às funções que desempenha. Claro que sendo um homem vertical, abdicou após a sua eleição para a presidência da pensão vitalícia a que tem direito enquanto ex-primeiro-ministro e dos cerca de 5.000€ de ordenado pagos pela Universidade Católica enquanto professor, e por isso fez no discurso do novo ano de 2008 uma crítica velada aos excessivos ordenados de alguns gestores, não todos, alguns. Isto porque sempre se safam aqueles que lhe permitiram, a ele e à filha, rendimentos especulativos extraordinários como no caso das acções à guarda da SLN. A esses não se pode apontar o dedo. Afinal não é todos os dias que se compram acções a 1€ e se vendem depois passados 2 anos a 2,4€. No balanço final das contas, o buraco de mais de 2 mil millões de euros no BPN, paga-o o contribuinte...

Alguns dirão que vale mais tarde que nunca. Também tenderia a concordar, não fosse o facto de Manuel Alegre se preparar para a batalha das presidenciais, e sem um piscar de olho à esquerda, o sr. Silva até poderia ser muito bem o 1º Presidente da República pós 25 de Abril a não conseguir o 2º mandato.

Sendo assim, prefiro saudar antes o facto de Cavaco Silva ter saído do altar onde muita da direita portuguesa o havia colocado e de ter regressado ao campo da humanidade: afinal também tem dúvidas e também se engana. Redondamente.

Porque homens providenciais, só nos livros de história!
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